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Dor lateral do quadril

Bursite e tendinite no quadril

Se dói na lateral do quadril, se você não consegue mais dormir daquele lado e se alguém já disse que é bursite, esta página vale a sua leitura. Porque existe uma coisa importante que quase nunca é explicada no consultório: na maioria das vezes não é bursite. É tendinite dos tendões dos glúteos, e essa diferença muda completamente o que funciona no tratamento.

Revisado em 16 de agosto de 2026

O que é bursite no quadril

Em uma frase

"Bursite no quadril" é o nome popular para a dor na face lateral do quadril, sobre a saliência óssea que se sente ao deitar de lado. O nome técnico atual é síndrome da dor trocantérica maior, e na maior parte dos casos a causa não é a bursa inflamada, e sim o desgaste dos tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo, uma tendinopatia glútea.

Passe a mão na lateral do quadril, mais ou menos na altura do bolso da calça. Aquela saliência dura que você sente é o trocânter maior, a parte mais externa do topo do fêmur. Nela se prendem os tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo, que são os músculos responsáveis por manter a bacia nivelada a cada passo que você dá. Por cima de tudo isso passa a banda iliotibial, uma faixa espessa e resistente que desce da bacia até o joelho. E, entre o tendão e a banda, existe uma bolsa fina de lubrificação chamada bursa trocantérica, cuja função é permitir que essas estruturas deslizem uma sobre a outra sem atrito.

As camadas da lateral do quadril: osso do trocânter, tendões glúteos, bursa trocantérica e banda iliotibial Esquema em camadas da face lateral do quadril, do osso para a pele. No centro, à esquerda, está o trocânter maior, a saliência óssea que se sente na lateral do quadril. Envolvendo o osso vem uma camada escura e espessa, os tendões do glúteo médio e do glúteo mínimo, que é onde o problema costuma estar. Logo depois aparece a bursa trocantérica, desenhada como uma bolsa fina e achatada. Por cima de tudo passa a banda iliotibial, uma faixa larga e resistente, e por fim a pele. Quando se aperta a lateral do quadril, a pressão atravessa essas camadas e chega ao tendão. Trocânter maior o osso que se sente na lateral do quadril Tendões glúteos glúteo médio e glúteo mínimo é aqui que costuma estar o problema Bursa trocantérica uma bolsa fina de deslizamento entre o tendão e a banda Banda iliotibial faixa espessa que desliza sobre o trocânter Pele de dentro do quadril para fora, em direção à pele
Arraste o diagrama para o lado para ver todos os rótulos.As camadas da lateral do quadril, do osso para a pele. Note a proporção: o tendão é uma estrutura espessa e a bursa é uma película fina entre ele e a banda iliotibial. Imagem ilustrativa e esquemática.

Durante décadas se atribuiu toda a dor dessa região à inflamação da bursa, e daí veio o nome que colou. O problema é que essa explicação não sobreviveu aos exames de imagem. Quando se olha o que realmente está acontecendo lá dentro, a bursa quase nunca está sozinha no banco dos réus.

Bursite ou tendinite? Por que quase nunca é só bursite

Esta é a parte mais importante da página, e é a que mais muda o resultado do seu tratamento.

Um estudo revisou os exames de ultrassom de 877 pacientes com dor lateral do quadril. O que encontrou:

  • 49,9% tinham tendinopatia dos glúteos;
  • 29,1% tinham espessamento ou lesão parcial da banda iliotibial;
  • 20,2% tinham alteração na bursa trocantérica;
  • e apenas 8,1% tinham bursite isolada, sem qualquer alteração dos tendões.

Ou seja: em pouco mais de 8 de cada 100 pessoas o diagnóstico de "bursite" descrevia de fato o problema principal. Nas outras 92, o problema principal era o tendão. Outra série, dessa vez com ressonância magnética, chegou a números parecidos: cerca de 62% tinham tendinopatia do glúteo médio, quase metade tinha alguma ruptura parcial ou completa desses tendões, e apenas 8,3% apresentavam bursite, sempre acompanhando uma alteração do tendão.

Por que isso importa tanto na prática

Bursa inflamada e tendão desgastado respondem a coisas diferentes. Uma bolsa inflamada responde bem a anti-inflamatório e a corticoide. Um tendão degenerado responde principalmente a carga progressiva, ou seja, a exercício bem dosado ao longo de meses, e pode até piorar com repouso prolongado e com injeções repetidas de corticoide. Tratar tendinopatia como se fosse bursite é a razão número um pela qual tanta gente faz três infiltrações, melhora por seis semanas de cada vez e nunca resolve.

Por isso a literatura médica moderna abandonou o termo "bursite trocantérica" como diagnóstico principal e passou a usar dois nomes: síndrome da dor trocantérica maior, quando se quer descrever o quadro clínico sem afirmar a causa, e tendinopatia glútea, quando o tendão está confirmadamente envolvido. Se o seu laudo ou o seu receituário diz "bursite", isso não está errado como descrição de onde dói. Só não é, na maioria dos casos, uma descrição completa do que está acontecendo.

Sintomas: como é a dor da bursite no quadril

O quadro é bastante característico, a ponto de o diagnóstico ser essencialmente clínico. As pessoas descrevem:

  • Dor na lateral do quadril, exatamente sobre a saliência óssea, que muitas vezes se aponta com um dedo só. Não é uma dor difusa: tem endereço.
  • Dor ao deitar sobre aquele lado, que costuma ser a queixa que faz a pessoa finalmente procurar um médico. Muita gente já trocou de colchão duas vezes antes de descobrir o que era.
  • Dor ao subir escada ou ladeira, ao levantar de uma cadeira baixa e ao entrar no carro.
  • Dor que desce pela lateral da coxa, às vezes até perto do joelho, quase sempre sem passar do joelho. É por isso que muita gente acha que é problema de coluna.
  • Dor ao ficar muito tempo em pé parado, principalmente quando se descansa o peso em uma perna só e o quadril "cai" para o lado.
  • Dor à palpação: apertar o local com o dedo dói, e dói forte.
  • Início lento e sem trauma. Raramente existe uma queda ou uma pancada que explique. A dor apareceu aos poucos, foi piorando ao longo de semanas ou meses e virou rotina.

O que geralmente não aparece: perda importante do movimento do quadril. Quem tem tendinopatia glútea normalmente consegue cruzar a perna para calçar a meia, com dor, mas consegue. Quando o movimento está travado, principalmente a rotação, a suspeita muda de direção e passa a apontar para dentro da articulação, para a coxartrose.

Vale registrar uma coisa que costuma surpreender: esta não é uma doença "leve". Estudos que compararam pessoas com dor lateral do quadril e pessoas com artrose avançada do quadril encontraram perda de qualidade de vida e limitação funcional equivalentes entre os dois grupos. Pessoas com tendinopatia glútea grave têm inclusive menor chance de estar trabalhando em tempo integral. O nome soa banal, o impacto não é.

Por que dói mais à noite, deitado de lado

Essa é provavelmente a pergunta mais buscada sobre o assunto, e ela tem uma resposta mecânica muito concreta.

O problema do tendão glúteo não é tração: é compressão. O tendão se prende na lateral do trocânter e, sempre que a coxa é levada para dentro da linha do corpo, o osso se aproxima da banda iliotibial e o tendão fica prensado entre os dois, como um cabo esmagado entre duas superfícies duras. Essa compressão é o que irrita o tendão e o que mantém a dor viva.

Agora pense em como você dorme:

  • Deitado sobre o lado doente, o peso do corpo empurra o trocânter contra o colchão e comprime o tendão de fora para dentro. Dor direta.
  • Deitado sobre o lado bom, a perna de cima, que é a doente, cai para frente e para dentro por cima da outra. Isso leva a coxa para dentro da linha do corpo e comprime o tendão outra vez. É por isso que muita gente diz "dói dos dois jeitos".

O ajuste de cinco segundos que costuma render a primeira noite decente

Durma sobre o lado que não dói e coloque um travesseiro entre os joelhos e os tornozelos, grosso o suficiente para que a perna de cima fique alinhada com o quadril, e não caída para dentro. Se precisar deitar sobre o lado doloroso, use um colchão com alguma acomodação ou um edredom dobrado sob o quadril. Esse ajuste não trata a causa, mas costuma ser a primeira coisa que devolve o sono, e sono ruim piora a percepção de dor de forma mensurável.

Quem tem mais chance de desenvolver

A tendinopatia glútea é a tendinopatia mais comum de todo o membro inferior, com incidência estimada em torno de 1,8 caso novo por 1.000 adultos por ano na atenção primária. E ela tem um perfil bastante definido:

  • Mulheres, em larga maioria. A proporção descrita varia de 2 ou 3 mulheres para cada homem nas séries clínicas gerais até 7 para 1 nas séries cirúrgicas. Nos ensaios clínicos de melhor qualidade reunidos por uma revisão de 2025, 94,7% dos 934 participantes eram mulheres.
  • Entre os 40 e os 60 anos, com idade média descrita entre 54 e 63 anos. Pode acontecer bem antes e bem depois, mas essa é a faixa dominante.
  • Peso corporal mais alto. O índice de massa corporal médio nas séries fica em torno de 28.
  • Anatomia da bacia. A bacia feminina é mais larga em relação ao fêmur, o que aumenta o ângulo de aproximação do tendão em relação ao osso e, com isso, a compressão. É a explicação mais aceita para a diferença entre os sexos.
  • Mudança recente de carga. Começar a correr, aumentar muito a caminhada, retomar academia depois de anos parada, ou o contrário, ficar muito tempo sedentária e voltar de uma vez.
  • Fraqueza dos abdutores do quadril, que é ao mesmo tempo causa e consequência, e é justamente o que o tratamento ataca.

Vale dizer com todas as letras: nada disso significa culpa. Tendinopatia glútea não é resultado de descuido, e a associação com peso e com nível de atividade descreve grupos, não pessoas. Muita gente magra, ativa e cuidadosa desenvolve o problema.

As posições que apertam o tendão: o que evitar

Se você ler só uma seção desta página, que seja esta. Nos estudos que deram certo, a orientação sobre postura e carga foi entregue junto com o exercício, e é impossível separar o efeito de uma coisa da outra. A lógica é sempre a mesma: tudo que leva a coxa para dentro da linha do corpo comprime o tendão.

  • Não cruze as pernas sentado. Nem a perna inteira sobre a outra, nem o tornozelo sobre o joelho. Sente com os joelhos afastados na largura do quadril.
  • Não sente com os joelhos juntos e os pés afastados. É uma posição extremamente comum e uma das piores para esse tendão.
  • Não fique em pé "descansando" em uma perna só, com o quadril jogado para o lado. Se você precisa ficar muito tempo em pé, distribua o peso nas duas pernas e alterne apoiando um pé em um degrau baixo.
  • Não durma de lado sem travesseiro entre as pernas. Já explicado acima, e vale repetir.
  • Cuidado com alongamentos que puxam a perna para dentro, atravessando o corpo. O clássico "alongamento de banda iliotibial", em que se cruza a perna e se empurra o quadril para o lado, é exatamente o movimento de compressão máxima. É comum a pessoa estar alongando religiosamente todo dia e piorando por causa disso.
  • Suba escadas com passos mais curtos, degrau por degrau se necessário, e evite subir com a bacia caindo para o lado.
  • Evite deitar de bruços com a perna dobrada para o lado, a chamada posição de sapo.

Repouso não é tratamento

Existe uma diferença enorme entre retirar a compressão e parar de se mexer. Retirar a compressão é o que ajuda. Parar de se mexer enfraquece ainda mais os abdutores, e um abdutor fraco deixa a bacia cair mais a cada passo, o que aumenta a compressão. É um ciclo, e é por isso que "descansar até melhorar" costuma prolongar o problema em vez de resolvê-lo.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico. Uma boa conversa e um exame físico bem feito valem mais do que qualquer exame de imagem aqui, e os números explicam por quê.

Os principais testes e o que cada um consegue dizer:

  • Dor ao apertar o trocânter. Sensibilidade em torno de 80%, mas especificidade de apenas 47%. Traduzindo: se não dói ao apertar, dificilmente é isso; mas o fato de doer não confirma o diagnóstico, porque muita coisa dói ali.
  • Dor à abdução resistida, quando o examinador empurra a perna para dentro e você resiste. Sensibilidade de 38% e especificidade de 93%.
  • Dor à rotação interna resistida. Sensibilidade de 44% e especificidade de 93%.
  • Apoio em uma perna só por 30 segundos. Se a dor lateral aparece nesse tempo, o teste é considerado positivo: sensibilidade de 38% e especificidade de 100% em uma das séries. É um teste que quase não dá falso positivo.
  • Sinal de Trendelenburg, quando a bacia do lado oposto cai ao se apoiar na perna doente. Sensibilidade de 73% e especificidade de 77% para rupturas parciais e completas do glúteo médio. É o achado que mais levanta a suspeita de que existe uma ruptura, e não apenas um tendão irritado.

O padrão que emerge é claro e útil: os testes de palpação são bons para levantar a suspeita, e os testes que envolvem contração ativa do músculo contra resistência são os que realmente firmam o diagnóstico. Um exame físico que se resume a apertar o quadril e dizer "é bursite" está deixando 90% da informação na mesa.

Preciso fazer ressonância?

Provavelmente não para fazer o diagnóstico. Provavelmente sim se o tratamento não estiver funcionando ou se houver suspeita de ruptura.

A ressonância magnética é excelente para ver o tendão: acurácia em torno de 91% para rupturas dos abdutores, com sensibilidade de 93% e especificidade de 95%. O problema não é a capacidade dela de enxergar. O problema é o que ela enxerga em quem não sente nada.

O dado que deveria mudar a conversa sobre exames

Líquido na bursa e edema em volta do trocânter aparecem em 65% a 88% de quadris completamente assintomáticos. Isto é, em pessoas que não sentem dor alguma. Um laudo que diz "bursite trocantérica" pode estar descrevendo um achado presente na maioria das pessoas da mesma idade sem qualquer sintoma. Por isso o exame precisa ser interpretado junto com o exame físico, e nunca no lugar dele.

Sobre os outros exames:

  • Radiografia simples. Não serve para diagnosticar tendinopatia: irregularidades da superfície do trocânter têm sensibilidade de 64% e especificidade de apenas 26%. Mas continua sendo útil, e frequentemente indicada, por outro motivo: ela mostra ou afasta a artrose do quadril, que é o principal diagnóstico concorrente e que muitas vezes coexiste.
  • Ultrassom. Sensibilidade de cerca de 79% para rupturas dos tendões glúteos e 61% para alterações da bursa. É barato, permite avaliação dinâmica e serve para guiar infiltrações, mas depende muito de quem está examinando, e uma revisão recente mostrou grande variação nos critérios usados por diferentes serviços.

Resumo prático: quadro clínico típico, sem fraqueza importante, tratamento conservador começa sem ressonância. Falha de tratamento após alguns meses, fraqueza marcante, sinal de Trendelenburg positivo ou planejamento de cirurgia, aí a ressonância passa a ser necessária.

Bursite no quadril tem cura? Quanto tempo dura?

Sim, na maioria das pessoas o problema resolve sem cirurgia. Uma revisão sistemática do tema descreve taxas de sucesso do tratamento conservador acima de 90%. Mas é preciso ser honesto sobre o prazo e sobre o que "resolver" significa.

Os programas que funcionaram nos melhores ensaios clínicos duraram de 8 a 12 semanas de tratamento supervisionado, com 14 sessões individuais com fisioterapeuta em um dos protocolos, e a melhora continuou aparecendo ao longo do primeiro ano. Não é um problema de duas semanas de anti-inflamatório.

E existe um número que ninguém gosta de citar: em cerca de 29% das pessoas os sintomas ainda aparecem até 5 anos depois do início. Isso não significa dor contínua por cinco anos; costuma significar fases de melhora e piora ao longo do tempo. Na prática clínica, essas recaídas costumam acompanhar duas coisas: parar o exercício assim que a dor melhorou, e voltar às posições de compressão sem perceber.

O tratamento que funciona: exercício e orientação

Esta é a intervenção com a melhor evidência disponível hoje, e por uma margem confortável.

O ensaio clínico de referência, publicado em 2018, sorteou pouco mais de 200 pessoas com tendinopatia glútea confirmada em três grupos: exercício com educação, uma infiltração de corticoide, ou apenas esperar. Os resultados:

79em cada 100 pessoas do grupo exercício e educação se consideravam melhores em 1 ano
52em cada 100 no grupo que apenas esperou, no mesmo prazo
+49pontos percentuais de vantagem do exercício sobre esperar, já nas primeiras 8 semanas

A vantagem do exercício sobre a infiltração foi de cerca de 20 pontos percentuais em 8 semanas (intervalo de confiança de 4,7 a 35,0) e continuava praticamente igual, 20 pontos percentuais, em 52 semanas (intervalo de 4,9 a 35,9). Ou seja: o exercício não só ganhou, como manteve a vantagem no longo prazo.

Uma revisão sistemática de 2025, que descartou 13 de 27 estudos por alto risco de viés antes de analisar qualquer resultado, chegou à mesma conclusão em outra métrica: o exercício com educação produziu efeito médio sobre a dor no curto prazo (diferença padronizada de 0,95, intervalo de 0,58 a 1,33) e efeito médio sobre a função (0,91, intervalo de 0,53 a 1,28), com efeitos menores porém persistentes em 6 e 12 meses. Uma metanálise de 2024 confirmou a superioridade sobre intervenção mínima para função, tanto no curto prazo quanto no longo prazo.

Como é o exercício, na prática

Não existe o exercício mágico, e as revisões são explícitas nesse ponto: nenhum tipo de exercício se mostrou superior a outro. O que existe é um princípio e uma progressão.

  • A posição importa mais do que o movimento. Todo exercício é feito mantendo a coxa em posição neutra ou levemente afastada, nunca cruzando para dentro. Um exercício correto feito na posição errada vira compressão.
  • Começa por contrações isométricas dos abdutores, ou seja, empurrar contra uma resistência sem que a articulação se mova. Costuma doer pouco e já produz analgesia.
  • Progride para carga dinâmica, aumentando de forma gradual ao longo de semanas: abdução com resistência, ponte, agachamento parcial, subida de degrau com controle da bacia.
  • Termina no controle funcional: caminhar, subir escada e ficar em pé sem deixar a bacia cair.
  • Alguma dor durante o exercício é aceitável e não indica lesão, desde que ela volte ao nível anterior em até 24 horas. Esse é o critério prático usado nos protocolos.

Um detalhe que os ensaios deixam claro e que muda o resultado: nos estudos bem-sucedidos, todos os fisioterapeutas foram treinados especificamente para entregar a educação sobre carga junto com o exercício, e as sessões foram presenciais e individuais. Um papel com desenhos de exercícios entregue na recepção não é a mesma intervenção.

Honestidade sobre a força dessa evidência

A avaliação formal da qualidade dessa evidência, pelo sistema GRADE, foi classificada como baixa a muito baixa na metanálise de 2024, e como de força moderada na revisão de 2025. Os motivos são conhecidos: poucos estudos, amostras pequenas, dificuldade de cegar quem faz exercício e critérios de diagnóstico diferentes entre os trabalhos. Isso não invalida a recomendação, porque o exercício continua sendo a melhor opção disponível e a de menor risco. Mas quem diz que "está provado" está exagerando, e você merece saber disso.

Infiltração de corticoide: o que ela faz e o que não faz

A infiltração funciona. O ponto é entender por quanto tempo.

No mesmo ensaio de 2018, o grupo que recebeu uma infiltração de corticoide teve, em 8 semanas, cerca de 29 pontos percentuais a mais de pessoas melhoradas do que o grupo que apenas esperou (intervalo de confiança de 13,2 a 45,2). É um efeito real e rápido. Em 52 semanas, essa mesma diferença havia caído para 6,4 pontos, com intervalo de confiança de -10,7 a 23,6, o que em bom português significa diferença nenhuma.

Outro ensaio, com 120 pessoas, encontrou exatamente o mesmo padrão: 55% de recuperados aos 3 meses no grupo da infiltração contra 34% no grupo de cuidado habitual; aos 12 meses, 61% contra 60%. A vantagem aparece, dura alguns meses e evapora.

Na revisão de 2025, o corticoide teve efeito pequeno sobre a dor no curto prazo (0,51, intervalo de 0,16 a 0,86), nenhum efeito no médio prazo e efeito desprezível no longo prazo. Sobre a função, o efeito foi desprezível já no curto prazo e nulo depois. Isso é coerente com o que se entende hoje da doença: o corticoide age sobre inflamação, e a tendinopatia crônica é um processo predominantemente degenerativo, não inflamatório.

Como usar bem essa ferramenta

A infiltração faz sentido quando a dor está tão intensa que impede começar o exercício, ou quando impede dormir a ponto de comprometer tudo o mais. Nesse caso ela abre uma janela de algumas semanas, e essa janela precisa ser usada para fazer a reabilitação, não para voltar à vida normal e esquecer o assunto. Repetir infiltrações indefinidamente em um tendão degenerado é uma estratégia sem apoio na evidência e com preocupação real sobre o efeito do corticoide na qualidade do colágeno.

Ondas de choque

A terapia por ondas de choque tem hoje uma das histórias mais interessantes desse assunto, porque ela ilustra perfeitamente o perigo de avaliar tratamento pelo resultado de curto prazo.

Um ensaio comparou três grupos: infiltração de corticoide, ondas de choque e exercício em casa. Veja o que aconteceu.

1 mêscorticoide 75% de sucesso, ondas de choque 13%, exercício em casa 7%
15 mesescorticoide 48%, ondas de choque 74%, exercício em casa 80%

A ordem se inverteu completamente. Quem avaliasse esse estudo em um mês concluiria que a infiltração é disparadamente o melhor tratamento e que exercício não serve para nada. Quem esperasse 15 meses concluiria o oposto. É a mesma população, o mesmo estudo, dois momentos diferentes.

Outros dados sobre ondas de choque:

  • Um ensaio com 103 pacientes mostrou melhora de 4,3 pontos na escala de dor com ondas de choque focadas somadas a exercício, contra 1,6 ponto no grupo placebo, em 2 meses.
  • Na revisão de 2025, as ondas de choque focadas mostraram superioridade sobre a infiltração de corticoide para dor em 12 meses. O tamanho do efeito relatado foi muito grande, mas vem de um único estudo e com intervalo de confiança amplo, o que pede cautela.
  • Nem toda onda de choque é igual. Um ensaio bem conduzido com ondas radiais não encontrou benefício adicional da dose recomendada sobre uma dose mínima. Os resultados positivos vêm principalmente das ondas focadas, e sempre em combinação com exercício, nunca isoladas.
  • Não existe protocolo padronizado estabelecido na literatura, o que é uma limitação honesta a considerar antes de investir.

Resumo: é uma opção razoável, não invasiva e de baixo risco, para quem não melhorou o suficiente com exercício e orientação. Não substitui o exercício, e sim se soma a ele.

PRP e outras injeções

O plasma rico em plaquetas, ou PRP, é uma injeção preparada a partir do sangue do próprio paciente. É a intervenção com mais expectativa e menos certeza.

O melhor estudo disponível comparou uma única injeção de PRP rico em leucócitos com uma única infiltração de corticoide, ambas guiadas por ultrassom e ambas seguidas do mesmo programa de exercícios, em 80 pacientes. Até 6 semanas os dois grupos eram iguais. A partir de 12 semanas o grupo do PRP passou à frente, e a vantagem se manteve ao longo de 2 anos de acompanhamento. Na revisão de 2025, isso se traduziu em superioridade do PRP sobre o corticoide para função no curto prazo, com efeito de tamanho médio (0,46), mas com intervalo de confiança que encosta no zero (0,00 a 0,91).

Do outro lado da balança, outros ensaios não encontraram benefício do PRP sobre o corticoide, e uma revisão sistemática de 209 pacientes concluiu que o PRP é promissor mas que a evidência vem de estudos pequenos e de baixa qualidade. Uma revisão de 2021 dedicada ao tema chegou a recomendar o PRP para tendinopatia de graus 1 e 2, mas essa recomendação se apoia essencialmente em um único grupo de pacientes.

Leitura honesta

O PRP tem plausibilidade biológica, um estudo de boa qualidade com resultado positivo sustentado por 2 anos e um perfil de segurança tranquilo. Também tem custo alto, não é coberto pela maioria dos planos e não tem confirmação em estudos independentes. Não é uma escolha errada para quem já fez a reabilitação corretamente e não melhorou. É uma escolha questionável como primeira medida, antes de tentar aquilo que tem evidência mais sólida e custo próximo de zero.

Quando a cirurgia entra

A cirurgia é reservada para casos que não respondem ao tratamento conservador bem conduzido, e para rupturas dos tendões glúteos. Uma classificação bastante usada divide a doença em quatro graus, e ela ajuda a entender a lógica das indicações:

  • Grau 1 — bursite, sem alteração significativa dos tendões.
  • Grau 2 — tendinopatia, com desorganização das fibras de colágeno, mas sem ruptura.
  • Grau 3 — ruptura parcial de um dos tendões.
  • Grau 4 — ruptura completa, com possível retração do tendão e degeneração gordurosa do músculo.

Para os graus 1 e 2, a evidência que sustenta o tratamento não cirúrgico é forte o suficiente para que a cirurgia fique como último recurso. Nesses casos, quando se opera, os procedimentos são de partes moles: retirada da bursa, com ou sem liberação da banda iliotibial, geralmente por via endoscópica. Para os graus 3 e 4, a lógica muda: não existe estudo mostrando que tratamento conservador funcione em ruptura completa, e o reparo cirúrgico do tendão passa a ser a recomendação para rupturas completas sintomáticas.

Números de segurança, de uma revisão que reuniu 27 estudos e 1.103 pacientes:

  • Taxa média de complicações de todos os procedimentos cirúrgicos: 10%.
  • Necessidade de nova cirurgia: 4,5%, em acompanhamento médio de 27 meses.
  • Procedimentos de partes moles, como bursectomia: complicações de até 8%.
  • Uma técnica específica, a osteotomia de redução do trocânter, apresentou 30% de complicações em 2 anos e a própria revisão desaconselha seu uso.
  • O reparo endoscópico apresenta resultados funcionais semelhantes ao reparo aberto, com menos complicações.

Vale registrar que boa parte dessa evidência cirúrgica vem de séries de casos, não de ensaios comparativos, e que o tempo médio de sintomas antes de operar nas séries publicadas foi de 32 meses. Ou seja: a cirurgia entra tarde, e entra depois de o tratamento conservador ter sido realmente tentado.

Bursite, artrose ou coluna? Como diferenciar

Três problemas diferentes podem doer perto do quadril, e a confusão entre eles atrasa muito tratamento. O lugar exato da dor é a informação mais valiosa que você pode levar para a consulta.

  • Dor na virilha, que desce pela frente da coxa e às vezes chega ao joelho: pensa-se primeiro em problema dentro da articulação, tipicamente a artrose do quadril. Costuma vir com perda de movimento, principalmente de rotação, rigidez pela manhã e dificuldade progressiva para calçar meia e cortar a unha do pé.
  • Dor na lateral do quadril, sobre o osso, que desce pela lateral da coxa e para no joelho: tendinopatia glútea e bursite. Dói ao apertar, dói ao deitar de lado, dói ao subir escada, e o movimento do quadril está preservado.
  • Dor que começa nas costas ou na nádega e desce pela perna, passando do joelho, com formigamento ou dormência: pensa-se em coluna lombar. Costuma variar com a posição da coluna, e não com o movimento do quadril.

Um detalhe útil do exame físico: o teste de FABER, em que a perna é colocada na posição de "número quatro", diferencia razoavelmente bem os dois primeiros casos. Quando ele reproduz dor na lateral, aponta para tendinopatia glútea com sensibilidade de 81% e especificidade de 82%. Quando reproduz dor na virilha, aponta para dentro da articulação.

Duas ressalvas honestas. Primeira: essas condições convivem com frequência, e é comum uma pessoa ter artrose leve e tendinopatia glútea ao mesmo tempo, sendo a segunda a responsável pela maior parte da dor. Segunda: dor de dentro da articulação irradia para a lateral da coxa em cerca de 27% dos casos, então o mapa não é infalível. Se você quiser um panorama mais amplo das causas possíveis, a página sobre dor no quadril organiza todas elas por localização.

Quando a dor é na nádega e piora sentado

Existe um primo próximo da tendinopatia glútea que quase nunca é diagnosticado corretamente: a tendinopatia do isquiotibial proximal, o tendão dos músculos posteriores da coxa onde eles se prendem ao osso em que nos sentamos, o ísquio.

O quadro é bem distinto:

  • dor profunda na nádega, bem embaixo, no ponto exato em que o corpo se apoia na cadeira;
  • piora ao ficar sentado, principalmente em superfícies duras e por muito tempo, e é comum a pessoa se sentar de lado ou em uma nádega só sem perceber;
  • piora ao correr, ao subir ladeira, ao dar passadas longas e ao alongar a parte de trás da coxa;
  • afeta tanto corredores e atletas de corrida e de esportes de campo quanto pessoas totalmente sedentárias.

Sobre o tratamento, é preciso ser franco: a evidência aqui é bem mais fraca do que na tendinopatia glútea. Uma revisão sistemática de 12 estudos, dos quais apenas 2 eram ensaios randomizados, concluiu que não há evidência suficiente para recomendar qualquer intervenção sobre outra. Os pontos que emergiram:

  • Ondas de choque se mostraram superiores a um tratamento multimodal em atletas profissionais, com retorno ao esporte em média em 9 semanas, contra nenhum retorno em 1 ano no grupo de comparação. A qualidade dessa evidência, porém, foi classificada como muito baixa.
  • Infiltração de corticoide: em uma das séries, 56% dos pacientes não tiveram melhora que durasse mais de 3 meses, e em outra 56% ainda tinham sintomas no seguimento de longo prazo.
  • Não é possível recomendar PRP nem sangue autólogo com a evidência atual.
  • A cirurgia foi o tratamento com mais complicações: 10% no total, sendo 9% menores, como dor prolongada e formigamento na coxa, e 1% maiores, incluindo abscesso e trombose venosa profunda.

Por analogia com o que se sabe sobre tendões em geral, e na ausência de evidência melhor, o caminho inicial continua sendo carga progressiva bem orientada e ajuste do tempo sentado. Mas quem lhe prometer certeza sobre o melhor tratamento aqui está indo além do que a literatura permite.

Sinais que pedem avaliação médica

Procure um ortopedista se houver

  • dor na lateral do quadril que persiste por mais de 6 semanas apesar de ajustes de posição e de atividade;
  • fraqueza real, com o quadril caindo para o lado ao caminhar, ou dificuldade de sustentar o peso em uma perna só;
  • dor que impede dormir de forma consistente;
  • dor lateral que apareceu depois de uma queda, principalmente em pessoa idosa e com dificuldade de apoiar o peso, situação em que é preciso afastar uma fratura de quadril;
  • dor acompanhada de febre, vermelhidão ou inchaço na região, que levanta suspeita de infecção;
  • dor com perda de peso sem explicação, dor noturna que não muda de intensidade com nenhuma posição, ou história de câncer;
  • dor que desce abaixo do joelho com formigamento ou perda de força no pé, o que aponta para a coluna;
  • dor que piora progressivamente mesmo com tratamento bem conduzido por 3 a 6 meses.

Esta página é informativa e não substitui avaliação individual. Ninguém consegue diagnosticar a própria dor lateral do quadril por um texto na internet, e nem esse é o objetivo aqui.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre bursite e tendinite no quadril

Bursite no quadril tem cura?

Na maioria das pessoas, sim, no sentido de que a dor desaparece e a vida volta ao normal sem cirurgia. Revisões da literatura descrevem taxas de sucesso do tratamento conservador acima de 90%. O que não é verdade é a promessa de melhora rápida: é um problema de tendão, e tendão responde a carga progressiva ao longo de meses, não de dias. Em cerca de 29% das pessoas os sintomas ainda aparecem alguns anos depois, geralmente em fases, e isso costuma estar ligado a parar o exercício assim que a dor melhora.

Quanto tempo dura uma bursite no quadril?

Espere pensar em meses, não em semanas. Nos melhores ensaios clínicos, o programa de exercício e educação dura de 8 a 12 semanas de tratamento supervisionado, e a maior parte da melhora aparece nesse período, com ganhos que continuam ao longo do primeiro ano. Quem procura ajuda cedo e ajusta as posições que comprimem o tendão costuma melhorar mais rápido do que quem convive com a dor por anos antes de tratar.

O que não pode fazer quem tem bursite no quadril?

O ponto central do tratamento é tirar a compressão de cima do tendão. Isso significa evitar cruzar as pernas sentado, evitar sentar com os joelhos juntos e os pés afastados, evitar ficar em pé com o peso todo em uma perna e o quadril jogado para o lado, evitar dormir de lado sobre o quadril doloroso sem travesseiro entre as pernas, evitar alongamentos que puxam a perna para dentro por cima da outra e evitar subir escadas dando passos largos. Não é repouso: é retirar a posição que aperta.

Qual o melhor exercício para bursite no quadril?

Não existe um exercício mágico, e as revisões deixam isso claro. O que tem evidência é o conjunto: fortalecimento progressivo dos abdutores do quadril, começando por contrações isométricas em posição neutra, sem cruzar a perna para dentro, associado a orientação sobre postura e carga no dia a dia. O detalhe que mais importa é a posição em que o exercício é feito: qualquer movimento que leve a coxa para dentro da linha do corpo comprime o tendão contra o osso e costuma piorar a dor.

Infiltração para bursite no quadril funciona?

Funciona, mas por pouco tempo. No maior ensaio clínico sobre o assunto, a infiltração de corticoide venceu claramente a conduta de apenas esperar nas primeiras 8 semanas, com cerca de 29 pontos percentuais a mais de pessoas melhoradas. Em 52 semanas essa vantagem havia desaparecido. O exercício com orientação, ao contrário, continuava à frente. A leitura prática é que a infiltração é uma ferramenta de alívio para destravar o começo do tratamento, e não um tratamento por si só.

Bursite no quadril é grave?

Não é uma doença perigosa e não evolui para artrose do quadril, mas é bem mais incapacitante do que o nome sugere. Estudos que compararam pessoas com dor lateral do quadril e pessoas com artrose avançada do quadril encontraram perda de qualidade de vida e limitação funcional semelhantes entre os dois grupos. É um problema que atrapalha o sono, o trabalho e a caminhada, e que merece tratamento sério.

Como saber se é bursite ou artrose no quadril?

O lugar da dor é a primeira pista. A dor da artrose do quadril costuma ser na virilha e pode descer pela frente da coxa até o joelho, piora com o movimento da articulação e vem acompanhada de perda de movimento, principalmente da rotação. A dor da bursite e da tendinite fica na lateral, sobre a saliência óssea, piora ao deitar sobre aquele lado e ao apertar o local com o dedo, e o movimento do quadril costuma estar preservado. Uma radiografia simples resolve boa parte da dúvida, porque mostra a artrose e não mostra o tendão.

Qual médico trata bursite no quadril?

O ortopedista é o especialista que faz o diagnóstico e conduz o caso, idealmente em conjunto com um fisioterapeuta, porque o tratamento principal é um programa de exercício progressivo com orientação de carga. Casos que não melhoram depois de alguns meses de tratamento bem feito, ou casos com fraqueza importante e suspeita de ruptura do tendão, se beneficiam de avaliação com um ortopedista dedicado ao quadril.

Em resumo

  • Na dor lateral do quadril, apenas cerca de 8 em cada 100 pessoas têm bursite isolada. Na grande maioria o problema é tendinopatia dos glúteos, e isso muda o tratamento.
  • O mecanismo da dor é compressão, não tração: tudo que leva a coxa para dentro da linha do corpo aperta o tendão contra o osso, inclusive cruzar as pernas e dormir de lado sem travesseiro entre os joelhos.
  • O diagnóstico é clínico. Palpação levanta a suspeita, testes de contração contra resistência confirmam. Líquido na bursa aparece em 65% a 88% de quadris sem dor nenhuma, então imagem sozinha não diagnostica.
  • Exercício progressivo com orientação de carga é o tratamento com melhor evidência: 79 em 100 pessoas se consideravam melhores em 1 ano, contra 52 em 100 no grupo que apenas esperou.
  • A infiltração de corticoide funciona por semanas e perde a vantagem em 1 ano. É uma ferramenta para destravar o começo, não um tratamento completo.
  • Ondas de choque focadas e PRP são alternativas razoáveis para quem não melhorou, com evidência mais fraca. A cirurgia fica para rupturas e para casos realmente refratários.
  • É uma condição de recuperação lenta, medida em meses, mas com mais de 90% de sucesso sem cirurgia em quem faz o tratamento até o fim.
Referências
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